"Foi com o 25 de abril que surgiu a minha apetência para a participação cívica" - Edição Jornal
16213
post-template-default,single,single-post,postid-16213,single-format-standard,qode-quick-links-1.0,ajax_fade,page_not_loaded,,hide_top_bar_on_mobile_header,qode-theme-ver-11.0,qode-theme-bridge,wpb-js-composer js-comp-ver-5.1.1,vc_responsive

“Foi com o 25 de abril que surgiu a minha apetência para a participação cívica”

“Foi com o 25 de abril que surgiu a minha apetência para a participação cívica”

Almeida Henriques é o atual Presidente da Câmara Municipal de Viseu pelo PSD.

Tinha acabado de chegar a Portugal quando estalou a Revolução dos Cravos. Com apenas 13 anos, diz recordar-se bem do contraste próprio de quem, como ele, vinha de Moçambique como retornado.

Como diria em 1999 o jornalista Batista Bastos, “Onde é que estava no 25 de abril?”?

 Bem, eu era muito pequeno… com 13 anos pensava basicamente em brincar! Recordo-me como se fosse hoje a manhã do 25 de abril. Eu estava na Grão Vasco, no meu 2º ano do ciclo preparatório [atual 6º ano]. Quando chegámos à escola, vimos que algo de novo se passava. Alguns estavam a defender Spínola, e outros o Salazar. Nesse dia ficámos muito satisfeitos, porque fomos para casa mais cedo!

  Ainda há dias estive a jantar com um amigo que era meu colega de turma, em que relembrámos essa discussão acalorada entre meninos e meninas pequenos, que estavam a olhar para o 25 de abril um bocadinho como uma disputa Benfica-Porto. Já nesse dia estávamos a despertar para a liberdade democrática com esta discussão.

Vindo de Moçambique, tinha noção do que se estava a passar em Portugal?

 Fiquei com uma tomada de consciência. Acabei por viver aquele período muito rico de 1975 para a frente, das Greves, das assembleias, da ânsia de ler Marx e Lenine. Diria que fizemos uma aprendizagem rápida do que era viver em democracia. Foi quase aí que surgiu a minha apetência para a participação cívica.

Que outra memória associa à região nessa altura?

 Antes de mais, recordo-me da viagem: demorámos sete, oito horas a chegar de Lisboa a Viseu. Recordo-me bem do atraso do país. Vir de uma cidade grande como Lourenço Marques para uma cidade pequena foi chocante. Eu fui para Cavernães, que era profundamente rural: não havia saneamento. Grande parte das casas tinha uma “loja das vacas”, que as pessoas utilizavam para fazer necessidades. A casa dos meus avôs era das poucas que tinha casa de banho.

“Vir de uma cidade grande como Lourenço Marques para uma cidade pequena foi chocante. Eu fui para Cavernães, que era profundamente rural. Não havia saneamento: grande parte das casas tinha uma “loja das vacas”, que as pessoas utilizavam para fazer necessidades”

Nestes 43 anos de democracia, quais as figuras políticas que lhe inspiram mais admiração?

 Desde logo Francisco Sá Carneiro, uma das minhas principais referências. Em segundo lugar, colocaria Mário Soares, apesar de em alguns momentos termos tido algumas divergências, e de sempre o ter criticado pelo processo de descolonização. Diria que são as duas figuras que mais marcam o pós 25 de abril e a consolidação da democracia.

 Admira Mário Soares, embora reconhecendo-lhe alguns pontos de desencontro. A descolonização é uma fratura na sociedade portuguesa até hoje…

  O meu pai ficou fortemente traumatizado pela descolonização.  Ele perdeu tudo em Moçambique, e veio para Portugal criar uma vida de novo.

 Eventualmente criaram-se alguns mitos de responsabilização ao Almeida, ao Mário Soares… Tenho alguma dificuldade em avaliar a situação. Mas garanto uma coisa: para Viseu, a descolonização foi um marco. Um dos momentos mais importantes foi com a chegada dos retornados, com o seu espírito empreendedor. Foram pessoas que agarraram a economia da região.

 Se tivesse que escolher um acontecimento vital para a vida do concelho nestes 43 anos de democracia, qual seria?

 A evolução da Escola Superior de Educação para a criação do Politécnico de Viseu. Um território que hoje não tenha ensino superior não tem valia. Eu coloco o ensino superior como principal fator diferenciador. E como segundo, o Hospital [de São Teotónio].

 Falemos agora de futuro. Enquanto Presidente, o que acha que falta fazer em Viseu?

 Para já, que o Estado Central cumpra com o Viseu o que lhe sempre negou: a ligação a Coimbra, e a ferrovia. Da nossa responsabilidade, consolidar a captação do investimento. Que Viseu seja a maior cidade do país fora do litoral, dada a sua importância como cidade média que serve de tampão à desertificação.